Publicado no A cada 15, da Editora Grua. 01/06/2011 para Quel Avançava pela estrada com os ombros curvados, arrastando os chinelos no chão, por causa do peso oferecido pelo feixe de lenha que trazia nas costas. O cachorro o acompanhava de perto, seguindo os calcanhares rachados do homem, enquanto o último fiapo avermelhado do sol era derrotado pelo negrume que se precipitava, feito um líquido que escorresse, soterrando os restos de luz na quina do horizonte. A estrada coberta de cascalho, seca e ressecada, irradiava pó, fosse pelo vento que rasgava o vale, fosse pelos passos do homem. Tudo era seco, como era seco e ressecado o capim cinzento escalando o barranco, brotando da vala à beira do caminho solitário que o homem traçava. Mancava da perna direita, o homem, arrastava os chinelos sob a barra dobrada da calça, de linho cinza, acumulando poeira à cada passada. Os galhos enegrecidos escorregavam das costas com rigor, mediante a ineficiência da perna desgraçada. Então ele parava, dava um soco no feixe e o feixe assentava novamente nas costas e no ombro. Não havia ninguém na estrada, nunca há ninguém na estrada. O trovões crepitavam no horizonte, feito um guarda-roupas que fosse arrastado num piso oco. Não houve aviso. Apenas uma fisgada no peito, o corpo endurecendo. As pernas do homem fraquejaram, lançando seus joelhos e uma das mãos ao cascalho, ao pó, enquanto o outro braço, atarracado ao feixe de lenha, tentava forçosamente manter os galhos unidos. Estava acordado, ainda. Podia ver o pelo branco das pernas, chamuscada de terra, à medida que o cachorro se movia à sua frente. Ouvia o choro contido do cachorro, a língua fria do bicho lambendo sua boca e o nariz que expelia sangue. Não lhe veio a ideia de morte, nada nesse sentido. Embora fosse velho, e tivesse visto as vastas plantações de milho, outrora cheias de homens, serem esvaziadas aos poucos à medida que colheitadeiras enormes rasgavam a colheita em poucas horas, e as lâmpadas incandescentes escamoteando as lamparinas lançadas ao lixo, e tivesse visto os pedreiros lacrando o túmulo dos amigos, e que esse cachorro lhe lambendo a fuça, já fosse o sétimo companheiro arranjado, não pensava que a hora tivesse chegado. A escuridão progredia, o cheiro de chuva era forte. A memória recente ia se apagando, ia se esquecendo que, uma hora antes, tinha descido por aquela estrada e se embrenhado na mata, e cuidadosamente tivesse catado galhos secos no chão, montado um feixe modesto e partido de volta. Sentia seu corpo pesar como se estivesse deitado abaixo do próprio corpo, feito um outro corpo que lhe caísse nas costas, prensando-o, com força, contra o cascalho. A chuva despencou. *** O policial tentava abrir a porta, o sobrinho o ajudava. Havia vãos enormes, a madeira era velha, seca, tendendo ao podre, os dois homens robustos, mas, mesmo assim, a porta não arredava, de jeito nenhum. Duas mulheres estavam ao fundo, eram vizinhas do homem. E o sobrinho ouviu uma dizer para outra que, quase toda noite, por volta das nove e meia, ouvia o homem cantar, pelejando com o violão, às vezes saía carregando o violão rua afora, o cachorro sempre atrás, era um pecado, um homem tão bom acabar desse jeito, sozinho, jogado na estrada. O policial tentou enfiar a chave de fenda no canto da porta e soltar a tranca, mas não conseguia encontrar a maldita tranca. “Pode arrombar”, disse o sobrinho. Os dois forçaram, a porta arreganhou e bateu no canto da parede enquanto uma corrente escorria de um buraco e tilintava no chão. O cheiro de mofo obrigou os homens a cobrirem seus rostos. Não havia cômodos. Um fogão feito de tijolos repousava no canto, onde uma mancha escura formava um arco na parede caiada. No chão, próximo ao fogão, duas panelas pretas, uma caneca de plástico vermelho, dois litros descartáveis com água, um deles quase vazio. No outro extremo, um colchonete fino estava estirado sobre as tábuas, apoiadas por pedras. E aquilo que parecia ser um cobertor, um trapo surrado, fino como papel, encardido, enrolado num canto. O policial saiu porta afora. Próximo da cama, havia alguma coisa enrolada num pano branco. O sobrinho se aproximou e puxou o pano. Era o violão, faltava a maioria das cortas, estava coberto de pó, mas bem conservado. Foi aí que o sobrinho se lembrou. Tinha encontrado o tio num bar, meses atrás. O sobrinho estava com os amigos, o tio chegou mancando, bêbado, com uma garrafa de seiscentos descartável. Pediu para mulher vender, que depois ele pagava. Mas a mulher sabia que ele não pagava. O sobrinho disse, pode marcar na minha conta. A mulher encheu a garrafinha e o tio ficou satisfeito. O sobrinho perguntou se ele ainda tocava. O tio disse que sim, tocava, o violão é a minha vida, e arreganhou os dentes podres, e o sobrinho sentiu o bafo. Mas o violão tá faltando corda, o tio disse, tem que ajeitar. O sobrinho bateu a mão no ombro do tio. Qualquer dia eu vou lá e levo as cordas pro senhor, daí a gente toca umas modas. O tio sorriu. Vou limpar o violão, e te espero lá. O sobrinho pegou o violão, depois o pano branco, e tentou limpar como pôde o instrumento. O braço estava um pouco empenado, havia uma pequena mancha de mofo na borda inferior da caixa. Coisa simples de resolver, pensou o sobrinho. Aquelas duas mulheres tinham chegado à porta. Mesmo sem olhar para trás, o sombrio podia sentir os olhos delas caindo sobre sua nuca, principalmente quando uma disse a outra, agora aparece, quantas vezes eu vim aqui trazer uns bolinhos que fazia lá em casa, e como ficava agradecido, era uma pessoa de um coração bom demais; vivendo numa tristeza dessa, era de uma alegria, não reclamava de nada. O sobrinho virou-se, olhou para a mulher e moveu os lábios, mas aquilo não era um sorriso. O policial se aproximou e pediu educadamente para as mulheres se afastarem. Quando saiu a rua, com o violão na mão, a claridade incomodou, e só então percebeu como era escuro aquele lugar. Despediu-se do policial, e foi para casa. A mulher assistia TV, e quando viu aquele violão na mão dele, perguntou como tinha sido. Tudo certo, ele disse. Ela disse que tinha separado o prato dele, estava no forno, era só esquentar. Ele não respondeu. No dia seguinte, saiu cedo para comprar as cordas. Nunca tinha entrado numa loja daquelas. Ficou admirado com a quantidade de instrumentos. Mas se irritou com o vendedor, quando o vendedor perguntou de que tipo ele queria, para que tipo de violão, se queria de aço ou de nylon. Mas ele não sabia tocar, então disse, encarando ao vendedor, tanto faz. Em casa, não soube muito bem como fazer. A mulher se aproximou e disse que ele devia pedir a alguém que soubesse. Ele se irritou com a mulher, enquanto apertava uma corda, e mesmo quando ela disse que ia arrebentar, ele seguiu apertando, dizendo para ela não encher, deixá-lo em paz. É, isso mesmo, custa me deixar em paz? Tudo bem, ela disse e saiu. A tarraxa rangia, e ele continuava apertando. Mas quando ele apertou mais uma vez, a tarraxa se partiu, a corda chicoteou e cortou-lhe o dedo. O corte era um risquinho branco, num tom bem mais claro que a pele. Mas logo uma gota de sangue minou, e não parou de minar e começou a escorrer pelo dedo até cair na mão. Ele pegou o maldito do violão pelo braço e bateu contra o chão, e bateu, e bateu, e continuou batendo enquanto a mulher se encolhia no portal da sala, chorrando silenciosamente, ouvindo os estralos da madeira se partindo, a respiração ofegante, olhando as lascas e cacos que voavam e caíam no piso. Quando terminou, com o toco do braço do violão na mão, ele sentia apenas cansaço. Sentou-se no sofá como se nunca mais fosse levantar dali. O sangue escorria vagarosamente da mão e pingava no piso, para depois ressecar, quando o sol se espreitasse pela janela despejando calor. *** O barulho da chuva lavando o cascalho, trovões se arrastando com vigor no céu, eram as únicas coisas que se ouvia. À beira da estrada, a enxurrada ia empurrando os tocos e as pedras, furiosa, se acumulando num fosso, cercado por um monte de terra, restos de alguma obra enigmática abandonada, pouco acima do local onde o corpo jazia estirado. A escuridão havia se instalado e não restava alternativa ao cachorro, ensopado, tremendo de frio, senão essa ansiedade instintiva de permanecer encolhido junto ao corpo e aos galhos, como se tentasse, apesar de tudo, adormecer também. O choro miúdo do bicho era abafado pela chuva que descia ruidosamente do céu, se iluminando, de tempos em tempos, com relâmpagos secos, feito fibras nervosas incandescentes riscadas sob as nuvens. O barro escorria no rosto prensado contra o cascalho, se acumulava na perna dobrada, sujava a camisa e a calça de linho. A enxurrada à beira da estrada logo tornou-se um poço, encardido, com folhas e gravetos flutuando na superfície, prestes a arrebentar. Ao pé do mirante, dois faróis despontaram, opacos, avançando com lentidão, quase que encobertos pela cortina d'água que preenchia o ar. Quem os avistasse de longe, vendo o ziguezague das duas pequenas bolas de luz, logo intuiria a dificuldade do motorista em guiar sobre aquela pasta viscosa. Quando os faróis atingiram a reta da estrada onde se encontrava o corpo, o cachorro se ergueu, empinou as orelhas. Primeiro ficou parado de rabo ereto, olhando aquilo que se aproximava. Depois, avançou até os pés do corpo, assumindo uma postura firme, enquanto a chuva castigava seu lombo. Latiu, talvez porque tivesse ouvido o barulho do motor, sob alta rotação; latiu, talvez porque os faróis tivessem ofendido diretamente os olhos. E persistiu latindo: ...o sujeito dentro do carro via apenas a boca do bicho se mover, ia recuando o pé do acelerador, preparando para parar. Mesmo que soubesse que parar o carro, naquele barro, não era recomendável, a não ser por extrema necessidade (e aquilo lhe pareceu, sem dúvida, extrema necessidade), ele precisava parar. Viu a enxurrada empoçada estourar e descer sobre a estrada, empurrando tocos e pedras, folhas e gravetos, indo na direção do cachorro cujos olhos brilhavam encortinados no breu, sob o manto d'água que jorrava do céu, indo na direção daquele homem desmaiado na estrada. Abriu a porta do fusca com um golpe seco, cravou os pés no barro e correu, desajeitado, na direção do corpo. O manto d'água e a lama, folhas e gravetos, cobriram seus sapatos, escalaram metade da canela, enquanto o homem desmaiado era vagarosamente arrastado pela água e o cachorro, confuso, se aproximava do corpo, latia quando o sujeito tentava segurar o homem, se afastava por causa da correnteza, que para um animal tão franzino, era de uma força terrível. O sujeito, por instinto, agarrou a cabeça do homem tentando evitar que ele se afogasse. Com a outra mão, pegou um dos braços e foi arrastando como pôde. Mas assim não daria certo, escapava das mãos. O cachorro latia, depois chorava, depois latia. Cada vez mais longe, se afastando. Com muito custo, o sujeito conseguiu colocar o homem sentado, com água, lama, galhos, batendo na parte baixa das costas. Enfiou uma perna no meio das pernas do homem, passou a outra perna para trás, protegendo o corpo da correnteza, para então enfiar seus braços debaixo dos braços do homem e arrastá-lo até o carro. Mas não seria tão fácil. Escorregou, caiu de costas no chão, a água escorria do rosto, era difícil enxergar, apesar dos faróis caindo sobre seus ombros. Quando encostou-se no carro, tentou erguer o sujeito, mas, embora conseguisse colocá-lo de pé, era incapaz de mantê-lo nessa posição. Tentou chamá-lo, se ele acordasse seria mais fácil. Mas ele estava mole como se não houvesse ossos por dentro das pernas. Os trovões continuavam murmurando. Precisava contornar o carro, ainda. Esqueceu disso na hora que começou a arrastá-lo. Ia pegar um pouco de correnteza. Por um momento olhou através da cortina d'água que descia do céu, olhou de um lado ao outro da estrada na esperança de que um outro carro estivesse vindo. Não havia ninguém na estrada, nunca há ninguém na estrada. Pegou o homem e iniciou o movimento de contornar o carro. Avançando com cuidado, cravava o pé firme no barro, prendia os calcanhares no chão na tentativa de evitar escorregões que poderiam colocá-lo na estaca zero. Próximo de chegar no ponto que precisava, quando, então, percebeu que ainda teria de abrir a porta, ouviu um latido abafado e distante. Tinha se esquecido do cachorro. Parou com as costas apoiadas no carro, respirava ofegante, tentava se concentrar para ouvir de que direção vinha o latido. Mas só ouvia a água rebatendo na lataria do carro, o motor funcionando à marcha lenta, o cascalho girando na enxurrada aos seus pés, um trovão crepitando e desaparecendo pelo vale. Embora quisesse, não podia fazer mais nada pelo animal. Precisava ajudar o homem. Abrir a porta foi mais fácil do que esperava; colocar o corpo do homem lá dentro que era o problema. O sujeito estava mole feito borracha. Conseguia sentá-lo, mas o homem, talvez por excesso de lama grudado ao corpo, logo escorregava, os pés iam para baixo do painel, a cabeça debandava para o banco do motorista. Olhou para o banco de trás, cheio de sacos de ração, e pensou, não fosse por aqueles malditos sacos, poderia colocar o homem deitado lá atrás. Mas pensar isso não adiantava nada, pensou em seguida, e ajeitou o homem no banco mais uma vez, e mais uma vez a cabeça do homem escorregou rumo ao banco dos passageiros e o câmbio bateu contra barriga do homem. Àquela altura desejava apenas sentar-se no carro e tocar para a cidade. Tirou o corpo do homem de cima do câmbio e o ajeitou deitado, atravessado nos dois bancos. Quando chegasse do outro lado, ajeitaria da melhor forma possível. Fechou a porta e começou a contornar o carro, parou na traseira, olhando para o breu ensopado de onde havia surgido o último latido do cachorro, enxugou os olhos nos ombros, aguçou os ouvidos, virou à cabeça de lado, mas não conseguia ouvir nada além dos ruídos inerentes à tempestade. Empurrou a cabeça do homem, sentou-se, bateu a porta. Ajeitou o homem mais ou menos e começou puxar o ar profundamente, soltando um sopro ruidoso ao final. Era o cansaço. Pegou a flanela sobre o painel e enxugou o rosto, com força, fazendo o pano correr de orelha a orelha, da nuca ao pescoço. Então percebeu como suas mãos estavam cheias de lama, as unhas sujas, os vãos entre os dedos encardidos. Passou a flanela na mão, com força, enquanto aquele ruído, abafado e grave, da água batendo na lataria e no vidro, alimentava em seu interior uma sensação de segurança que logo transformou-se em torpor e languidez, emergindo como um peso que caísse nos braços e nas pernas. Embora estivesse ensopado, podia sentir o suor escorrendo na sua pele, sob a camisa e as calças. Pegou a flanela e limpou o rosto do homem com o mesmo cuidado que havia limpado o seu. Limpou as mãos, mas quando chegou aos braços, percebeu que o pano era inofensivo, estavam sujos em igual quantidade, e aquele gesto apenas espalhava lama, feito um creme hidratante, de maneira uniforme sob os braços do homem. Pensou em tirar a camisa, mas era perda de tempo. Aquele homem não estava bem. Era preciso partir dali. Engatou à marcha, acelerou, mas não avançou muito na estrada. Veio o primeiro ziguezague e o homem caiu no seu colo. E foi então, a essa altura dos fatos, quando o cansaço tomava conta de seu corpo, suas pernas doíam ao esticá-las para pisar na embreagem, ao mesmo tempo que, em alguma parte obscura e não consciente, ou até instintiva, desejasse apenas se livrar dessa situação incômoda, quando pegou com uma das mãos o pescoço do homem; desconfiou que aquele homem não estava apenas desmaiado. Mas, talvez, pelo esforço excessivo, pela dificuldade vencida, refutou a ideia de imediato e implantou a ideia de que era necessário chegar o mais rápido possível à cidade. Acelerou novamente e o carro subiu deslizando, os pneus jogando lascas de lama para trás, e enquanto os faróis se afastavam dali, mergulhando na escuridão, a enxurrada diminuía o fluxo lentamente, até se tornar um manto encardido que vazava sem vigor; e quando já não fosse mais possível ver o carro dali, escorreria apenas um fio d'água inofensivo; e por fim, nos próximos dias, apenas as marcas encravadas, esculpidas no barro ressecado e endurecido pelo calor do sol, que rapidamente chuparia toda umidade. *** Iria encontrar o menino no campinho ao fim da rua. Os lotes vagos eram cada vez maiores e a distância entre as casas se alargava à medida que o sobrinho avançava rua abaixo. Não havia calçamento, o que potencializava o barulho da sua caminhada. E talvez fosse apenas isso: o barulho crocante do tênis indo e voltando no cascalho, remetendo às tantas ocasiões que descera por aquela mesma rua, há uns vinte anos atrás, exatamente no rumo daquele campinho. Os hematomas sob a faixa resistiriam por algum tempo, mas, a mão esquerda, a mais atingida, não doía desde ontem. Tinha almoçado com a mulher ainda a pouco, juntos à mesa, como ela fazia questão, sempre, mesmo quando as coisas não iam muito bem, como agora Quando descia com um dos amigos, sempre imitavam com a boca aquele ruído crocante. E talvez fosse mesmo apenas isso; o barulho crocante do tênis indo e voltando no cascalho. Era estranho, lhe ocorreu de súbito, que aquela região da cidade tivesse permanecido praticamente intocável durante esses anos todos. As casas (poucas) ainda eram as mesmas, com raras exceções. Uma modesta residência de tijolos à vista, janelas de aço franzino na fachada, erguida aqui ou ali; fora isso, nada de novo. De onde estava, já podia ver o campinho, as figuras miúdas dos meninos correndo enquanto a bola subia e descia. Era possível perceber a grande inclinação do terreno, e como o gol do lado da vala era bem mais baixo que o gol que dava para a rua. O que se transformava numa adversidade ao time que estivesse na parte baixa, porque, claro, tinha que subir uma pequena ladeira nos contra-ataques. O menino tinha encontrado o cachorro há três dias. O cachorro estava vagando por esses lados, faminto e sujo. E como a história do cachorro havia se espalhado pela cidade, a mãe do menino disse que o menino devia entregar o cachorro ao sobrinho do homem. O sobrinho precipitou-se sobre a cerca atrás do gol. E logo avistou o cachorro pulando e abanando o rabo, enquanto o menino, à margem do campo, girava o litro descartável de um lado a outro, com os pés. Não houve dúvida. O sobrinho soltou um assovio e depois gritou: “Caneta!”. O menino interrompeu a brincadeira na mesma media em que o sorriso abandonava seu rosto. O cachorro se virou, ergueu as orelhas e parou com o rabo ereto, imóvel, como se não tivesse certeza, como que diante de uma miragem. Os moleques no campinho interromperam o jogo, a maioria ficou parada onde estava, comentando, olhando para o sobrinho dependurado na cerca; uma minoria mais curiosa veio caminhando devagar na direção da cerca. “Caneta!”, esse segundo grito foi o bastante para que o cachorro disparasse, atravessando o campinho, se desviando dos meninos, numa velocidade impressionante. O menino catou o litro descartável e começou a caminhar devagar, batendo o litro na perna. O cachorro chegou perto da cerca e o sobrinho começou a repetir carinhosamente o nome do bicho, assoviar, passar mão no lombo do bicho; e embora o cachorro demonstrasse afeição, ainda assim, alguma coisa não estava certa. Não tinham intimidade. O cachorro veio até ele, pulou nas pernas, mas aqueles movimentos não correspondiam ao que fora anunciado com a empolgação com que tinha atravessado o campinho. Era o afeto natural que aquele cão oferecia a qualquer pessoa que o agradasse. “Esse campinho ainda tá no jeito, hein?”, disse o sobrinho quando o menino se aproximou. “É”. O cachorro estava de fora da cerca, no meio das pernas do sobrinho. “No meu tempo a gente dava uns pega da pesada por aqui. Putz... era só jogão. Ninguém gostava de perder”. “Hum-hum”. “O Turuna começou aqui, e olha onde o Turuna tá hoje”. “O Turuna é o terceiro goleiro do América. Meu pai tem uma camisa dele”, disse um dos meninos, “Novinha a camisa”. Os outros moleques debandaram a falar, explicando que o Turuna tinha jogado contra o Cruzeiro, metade do segundo tempo, uma vez. Outros discordaram, dizendo que na verdade tinha sido contra o Atlético, e começou uma discussão. “Ei! Deixa isso pra lá galerinha. O importante é que o homem jogou aqui, no mesmo chão que vocês”, disse o sobrinho, “e isso é pra vocês verem que todos aqui têm potencial pra conseguir algo igual o Turuna conseguiu”. Os garotos no meio do campinho começaram a se aproximar. Apenas três ficaram, sentados, conversando entre si, como se o que acontecia ali perto da cerca não tivesse importância. “Caneta, puxa vida”, disse o sobrinho, “esse cachorro é ninja, né não?”. O menino não disse nada. Um outro disse que nem mesmo um pitbull teria sobrevivido a alguma coisa assim. “Quando eu achei ele”, disse o menino, num tom de voz baixo, “tava tudo sujo, tava machucado e parado assim triste, não latia, não, não latia, ficava assim parado, não latia”. O sobrinho se agachou e pegou o Caneta. “Herdou essa raça do dono dele, meu tio era raçudo assim também”. “Ele ainda tocava violão”, disse o menino. O sol das cinco horas ainda estava forte no céu. Ao fundo, longo adiante, os bambuzais dançavam no ritmo do vento, e foi para lá que o sobrinho olhou por um momento. “Ou!”, gritou um dos meninos lá no campinho, “num vai jogar mais não?” Isso foi o suficiente para os meninos debandarem de volta para o campo. Ficaram só os dois. “Eu até poderia deixar ele com você, sabe?”, disse o sobrinho, “mas, veja bem, foi a única coisa que sobrou do meu tio. Não sei se você entende”. O menino não disse nada. “A gente não pode ter tudo que quer nessa vida, não, sabe?”, e colocou o Caneta no chão, “a vida é dura menino, nem sempre as coisas são justas, você tem que aprender a perder de vez em quando, porque você vai ver, vai se lembrar disso que tô falando, porque a gente mais perde do que ganha nessa vida, e perde pra gente mesmo, o que é o pior nisso tudo”. O Caneta rodeava as pernas do sobrinho. “Eu, na tua idade, nunca tive um cachorro. Meu pai não deixava. Você tem sorte, tem muita sorte. Pode arrumar um cachorro fácil, fácil”. A bola voltou a rolar no campinho. Os moleques corriam, gritavam, e esses gritos preenchiam o silêncio entre os dois à beira da cerca. “Esse campinho é um espetáculo, não é mesmo?”. O menino não disse nada, batia o litro descartável na perna. O cachorro ficou parado na cerca. O sobrinho foi se afastando, e talvez fosse apenas isso: o barulho crocante do tênis indo e voltando no cascalho. “Vai levar não?”, gritou o menino. “Qual é teu nome?”. “Lazinho”. “De vez em quando você leva o Caneta lá em casa pra mim ver, tá certo?”. “Tá, tá, eu levo, sim, levo”. “Então chama ele, rapaz! o Caneta é seu”.
|
